Do Segundas Intenções
Por Cylene Dworzak Dalbon

É com enorme tristeza que atualizo hoje este blog, depois de tanto tempo, com uma notícia dessas. Morreu, nesta terça-feira, dia 25 de março de 2008, Sérgio de Souza, o Serjão, editor e um dos fundadores da Revista Caros Amigos.
Ainda estou tentando acreditar que era o nosso Serjão. A sensação é a de que, dia desses, ele estará sentado em sua mesa, nos dando a honra de sua presença na redação de Caros Amigos. O dia de hoje ficará na lembrança como o dia em que perdemos não só um mestre, mas também, um enorme exemplo de ser humano.
Definir Sérgio de Souza é uma tarefa para poucos e, portanto, não vou ousar fazê-lo. Deixo isso a cargo do Myltainho, no texto abaixo. Só gostaria de deixar registrada a imensa dor que todos nós que conhecíamos o Serjão estamos sentindo.
A Revista Caros Amigos permanecerá de luto por muito tempo. Mas sei que superaremos juntos a dor e nos manteremos unidos e fortes para tocar este projeto que chega ao seu 11º aniversário mantendo a mesma ética e qualidade jornalística, fruto de um sonho do próprio Serjão.
Quanto a mim, só tenho a agradecer a este mestre com quem tive a honra de trabalhar e conviver no último ano. Sem dúvida é um dos caras que me fizeram escolher este caminho na profissão. Descobri que outro jornalismo é possível, que outro mundo é possível. É este caminho que vou seguir. E sempre com a imagem do Serjão sentado em sua mesa, com o lápis na mão e um sorriso discreto, porém sempre muito afetuoso no rosto.
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Foi-se Sérgio de Souza, o nosso Serjão
Mylton Severiano*
Morreu em São Paulo aos 73 anos o jornalista Sérgio de Souza, o Serjão. Operado dia 10 de março de 2008 em razão de uma perfuração no duodeno, morreu em decorrência de complicações na madrugada de hoje, terça-feira, 25 de março, no Hospital Osvaldo Cruz.
Sérgio deixa viúva a jornalista Lana Nowikow, com quem teve três de seus sete filhos.
Nascido em 1934 no Bom Retiro, bairro tradicional no centro da capital paulista, Serjão era um autodidata. Não chegou ao curso “superior”, mas fez-se na rua e nas redações “doutor” em jornalismo. Bancário, recém-casado, viu uma notícia na Folha de S. Paulo no fim da década de 1950, do tipo “você quer ser jornalista?”, e para lá se dirigiu. Fez um teste e, aprovado, entrou para a reportagem do jornal da Barão de Limeira, onde nos conhecemos.
Quatro anos depois, a convite de Paulo Patarra, transferiu-se para Quatro Rodas, da Editora Abril. Ali, em 1966, faria parte da equipe que fundou e lançou REALIDADE, cujo forte era a reportagem, revista “cult” daquela editora e maior sucesso jornalístico do gênero neste país.
Avesso a entrevistas, até tímido diante de uma câmera, microfone ou mesmo um colega de caneta e papel na mão, Serjão não deixou muitas pistas sobre sua vida particular, onde estudou, que preferências tinha em matéria de literatura, cinema, e outras trivialidades que costumam compor um necrológio. Certo é que Sérgio de Souza é o último monstro sagrado vivo que se vai de uma geração que fez, além de REALIDADE: a revista quinzenal de contracultura O Bondinho; o jornal mensal de política, reportagem e histórias em quadrinhos Ex-; o programa de televisão 90 Minutos na Bandeirantes – entre dúzias de trabalhos.
Há onze anos, em abril de 1997, Sérgio lançou, com amigos e associados, a revista Caros Amigos, que vinha dirigindo até duas semanas atrás.
A importância de Serjão para o jornalismo pátrio é discreto como sua figura e incomensurável como seu tamanho – pois se dá justo naquele trabalho quase anônimo do editor, do editor de texto, da palavra seca, cortante, exata, da melhor linha humano-política na orientação ao repórter, ao subeditor, ao chefe de arte, ao departamento comercial, advinda de um caráter íntegro e de um senso jornalístico próprio dos gênios.
Dedicou 50 anos à profissão, na qual não fez fortuna, ao contrário: deixa dívidas. Aliás, uma de suas últimas criações foi o “Anticurso Caros Amigos – Como não enriquecer na profissão”.
Aos que o sucedem em Caros Amigos, fica a desmedida tarefa de homenagear sua memória fazendo das vísceras coragem e coração para tocar o barco em frente.
*Editor-executivo de Caros Amigos