Do Segundas Intenções

Por Cylene Dworzak

Dezenove pessoas foram mortas no complexo do Alemão, no Rio de Janeiro em confronto com a polícia. Isto é o que dizem o Governador e a polícia. Mas o laudo da OAB afirma que todos os 19 mortos foram na verdade assassinados. Tinham marcas de auto defesa e estavam desarmados. Sete dos mortos foram baleados pelas costas, dois foram baleados à queima-roupa e três tiveram a nuca atingida.

A diferença entre o que temos hoje e o que vivíamos na ditadura militar é o acesso (mesmo que manipulado) às informações. É o direito de contestar e a liberdade de investigar. Não existem diferenças entre a execução de um militante político e um bandido. Não tem termos humanos, pois a luta das causas são realmente muito diferentes.

No período ditatorial que assolou o Brasil por 21 anos, a polícia executava militantes políticos e emitia notas oficiais. Estas notas iam para a imprensa e para a família e não podiam ser contestadas. Pessoas que morreram torturadas ou simplesmente executadas, tinham as causas de suas mortes forjadas por laudos “oficiais” emitidos pelos órgãos de repressão. E ao abrir os jornais ainda hoje, me deparo a mesma situação diversas vezes. Não é a primeira vez que policiais executam pessoas, mesmo que sejam bandidos (que deveriam ser presos) e dizem que morreram em confronto.

Muitas pessoas dirão: bandido bom é bandido morto ou que a justiça do país não funciona e por isso é melhor matar logo de uma vez. Não é bem por ai. Não sou a favor de direitos humanos para quem tira a vida de inocentes. Mas também não sou a favor de crueldade. Sou a favor da justiça e ela não se faz com as próprias mãos.

Graças aos gritos de liberdade, vivemos hoje numa caminhada à democracia (é bom deixar claro: Democracia se constrói todos os dias e vem do povo para o governo e nunca ao contrário). Podemos contestar as chamadas “versões oficiais” e apontar as barbáries da polícia, de delegados, juízes, deputados, senadores e etc.

Caminhemos então à tão sonhada democracia. Denunciemos quem rouba esse país e acaba com as esperanças de um dia sermos um país definitivamente livre com pessoas livres e verdadeira justiça. Utopia?? Pode ser…..mas o que perderemos tentando??